terça-feira, 20 de outubro de 2009

A PARTIDA

      Na década de 70, do século 20, na cidade de Porto Alegre , Fernando e sua família moravam numa humilde casa, em um bairro afastado dessa grande cidade. Ele veio do interior do Estado para tentar a vida na capital. Aqui conheceu a sua companheira, casaram-se e tiveram uma filha. Lúcia era o nome, uma linda menina.
      Fernando tinha nessa época, 28 anos e sua esposa 23 anos e viviam na mais completa felicidade. Eram pobres, humildes mas muito trabalhadores. Ela fazia uns bicos, lavando para fora, em quanto ele, era um excelente pedreiro.
      Fernando apesar da idade, já tinha muita experiência nesse ramo de construção. Uma casa de alvenaria, ele sabia construir do alicerce até o telhado. Encanamentos, fiação de eletricidade e madeiramentos da cobertura, não era problemas para ele.
      Esse competente trabalhador, nessa grande metrópole foi em seguida contratado por uma firma como empreiteiro de obra. Era um pequeno edifício que ele teria que prestar serviço como responsável pela mão de obra. Ele ficou contente com a promoção e com o seu salário.
      Fernando e Maria Helena eram muito religiosos. Rezavam constantementes, sempre agradecendo á Deus, pela vida, pela saúde, pelo emprego e pela proteção dos anjos da guarda. Aos domingos eles iam a igreja para assistirem a missa. A bela Lúcia veio completar a felicidade dessa família.
      Este empreiteiro de obras, em seguida comprou um carro. Era o seu primeiro automóvel, um Volkswagen usado, mas inteiro e bonito. Tudo ia bem para essa família. Agora ele tinha uma condução para ir aos fins de semana para a praia. Eles gostavam muito de ir ao litoral, principalmente no verão.
      A sua moradia seria a próxima meta para esse casal. O casamento, a casa própria, um filho e um carro era os sonhos desse bom homem. Este, aos poucos ia conquistando, sempre com a ajuda da sua fiel companheira.
      Trabalho era que não faltava para esse competente profissional. O seu patrão, um jovem engenheiro que gostava muito dele, já tinha avisado, que tinha pegado outra grande obra nessa capital.
      O destino estava sendo benevolente com eles, e estes, agradeciam todos os dias essa boa vida que estavam levando. Deveras, eles eram sem dúvida, merecedores dessa vida digna e promissora. Estavam fazendo por merecer. Mas nem sempre é assim. Muitos são dignos trabalhadores e não tem a sorte de conseguir um trabalho, uma casa ou uma família. As vezes o destino é adverso com certas pessoas, causando muitas dificuldades com elas.
      Certo dia, mais precisamente uma sexta feira de noite, Fernando com a sua família, resolvem passar o fim de semana no litoral. Maria Helena rapidamente arrumou todas as coisas para esperar o marido pronta. Ela estava contente, pois sempre gostou de praia. A pequena Lúcia de um ano apenas parecia entender o que estava esperando. Ela sorria constantemente para a sua adorada mãe. Certamente puxou a sua mãe pois ela gostava de andar de carro e de praia. Apesar de estar caminhando a pouco tempo ela já gostava de brincar na areia.
      Estava dia ainda, apesar dos relógios marcarem 19:00 horas, quando Fernando chegou de carro, para imediatamente partirem para a cidade litorânea do estado de Santa Catarina. A viagem era um pouco longa visto que ele era acostumado a ir na praia do seu estado. Agora eles iam para outro lugar mais longe. Esta viagem estava prevista um tempo de aproximadamente umas quatro horas. Na verdade este motorista não tinha muita prática em viagem longa. Esta era a primeira, mas ele era muito cauteloso. O seu carro estava bom e certamente chegaria no seu objetivo tranqüilo.
      Eles então partiram. O relógio de pulso dele marcava 19 horas e 45 minutos quando já estavam quase saindo de Porto Alegre. A mãe estava sentada no banco da frente com a sua filha no colo. Ele faceiro da vida cantarolava uma canção proveniente do rádio. Apesar de ele ir devagar mas com pouca demora já estavam saindo do seu estado e entrando em Santa Catarina.
      A noite estava estrelada, a lua brilhava, ostentando a sua beleza para a alegria dos enamorados. O vento sul soprava discretamente fazendo com que a noite fosse maravilhosa e refrescada por esta aliada brisa. Tudo indicava que o dia seguinte seria de um intenso calor. O fim de semana preludiava ser magnífico para colaborar com os veranistas.
      Voltando a comentar a viagem dessa bonita família. Eles descansavam depois de se alimentarem em um bar de beira de estrada já em outro estado. Faltava aproximadamente uma hora para chegar no seu destino final. A pequenina Lúcia adormeceu no colo da sua progenitora. A dedicada mãe acomodou a mesma, no banco de trás do carro. Ela colocou alguns travesseiros em redor da garota para proteger de alguns solavancos ou freadas bruscas , se por ventura acontecer.
      Assim eles iniciaram a viagem de ida para a praia catarinense. Volta e meia a mãe olhava para observar a sua querida filha.
     Falta pouco querida! Daqui a pouco estamos lá! Falou o marido motorista, sorrindo para a sua bela esposa.
     Tudo bem! Não corre muito! Respondeu a companheira Maria Helena.
      Já fazia poucos minutos que eles estavam em viagem. A estrada estava muito movimentada. Muitos carros e caminhões transitavam rápidos nessa estrada perigosa. Fernando estava atento no volante do seu pequeno automóvel, apesar de ser estreante em rodovias movimentadas.
      Maria Helena acende a luz interna do carro e olha mais uma vez para sua querida filha.
     Fernando ela está sorrindo dormindo! Comentou a dedicada mãe.
      Está tão pálida! Tornou a comentar Maria Helena apagando a luz interna do veículo.
Meu Deus! Que luz forte nos meus olhos! Falou o apavorado Fernando.
      Estas foram as últimas palavras ditas pelos tripulantes desse fatídico carro. Nesse exato momento um caminhão desgovernado que vinha em sentido contrario invade a pista do Fuca e bate do lado do pequeno carro.
      O carro de Fernando abalroado pelo caminhão capota várias vezes saindo fora da pista. O caminhão também capota em cima da pista sendo ainda colhido por outro carro pequeno. Foi tudo rápido. O Volkswagen de Fernando ao capotar injeta para fora o casal, pois os mesmos tinham esquecidos de colocarem os cintos de seguranças.
      Maria Helena bate a cabeça e perde os sentidos. Fernando rola pelo o asfalto, mas em seguida se levanta meio tonto. O seu carro imediatamente pega fogo e explode no acostamento para o desespero do motorista Fernando. Ele ainda tenta entrar no carro em chamas para salvar a sua querida filha. Este então foi contido pelas pessoas que estavam agora no local. Nada se podia fazer depois que explodiu o pequeno carro.
      Rapidamente chegam no local do acidente, viaturas policiais e ambulâncias para socorrer os feridos. Fernando tentava desesperadamente a chegar perto do seu carro em chamas. Foi preciso os policiais a força tira-lo de perto do carro incendiado. Maria Helena ainda desacordada foi levada para dentro da ambulância. Seu marido também ferido, foi levado para a mesma ambulância, e rapidamente deslocaram-se para o hospital da cidade mais próxima. Outros feridos também foram socorridos em outra ambulância.
      O engenheiro Ramos, patrão do Fernando foi avisado e este avisa os parentes do seu empregado. Esse bom homem viaja para o local onde está internado o seu empregado e sua esposa. Ramos então assume as despesas com o hospital e fica na cidade para assessorar o desenrolar do acidente.
      Dois dias depois, ambos acidentados deram altas do hospital. Agora já juntos dos familiares na cidade de Porto Alegre, dão inicio ao enterro da sua filha querida. No cemitério, na hora da derradeira despedida a mãe fica desesperada, chorando copiosamente, não se conformando com a morte prematura de seu nenê. Ela grita, dizendo que é culpada pela morte da sua filha. Os familiares dessa mãe desesperada ajudam a conter o desatino dessa mulher. Fernando também, foi preciso o apoio dos familiares e amigos para poder suportar tamanha dor.
      Depois de muito choros e lamentações a inocente criança em um pequeno caixão lacrado foi depositada em um túmulo do cemitério. Parecia que desabou o mundo na cabeça desse desafortunado casal.
      O engenheiro Ramos deu umas férias adiantada para o fiel colaborador Fernando. Na verdade o bondoso patrão disse que se em trinta dias ele não tivesse em condições de trabalhar, poderia ficar mais dias, até estar apto para o serviço. Ramos sabia que essa dor de perda de seu ente querido era doloroso. Mas o tempo é remédio para tudo. Isso um dia iria passar.
      Depois de trinta dias do acontecido, o fiel empregado já estava trabalhando na grande construção. Até por que o trabalho ajuda a esquecer a grande perda. Maria Helena não estava conseguindo se conformar com a perda da sua filha. Ela chorava todos os dias. Abraçava nos brinquedos e nas roupas da sua filha e chorava. Ela dizia em voz alta que era culpada pela morte da sua filha. Não adiantava os familiares ou amigas dizer que era uma fatalidade.
      - Minha filha sofreu muito ao morrer queimada ! Ela não merecia morrer sofrendo desse jeito ! Ela é um inocente! Por que Deus fez isso com ela?
      Isso era que essa pobre mãe dizia todos os dias para as pessoas que tentavam acalma-la. O tempo foi passando e ela continuava com esse martírio.
      Seis meses se passaram. Fernando estava mais conformado pois trabalhava muito na obra e ao chegar em casa queria descansar apesar das lamentações da sua esposa. Maria Helena estava definhando pois pouco se alimentava. Parece que o sofrimento dela não tinha mais fim.
      Ela perdeu a vontade de viver e se maldizia. Culpava-se dizendo que essa morte horrível não era para uma criança tão inocente. O marido tentava consola-la, mas estava difícil. Deixou de ser religiosa e criticava Deus por ser tão injusta com ela.
      Certo dia de manhã essa jovem mãe saiu para a rua para caminhar. Era nove horas, o dia estava bonito pois nesse sábado havia um sol maravilhoso. Ao chegar em uma praça que fica a duas quadras da sua casa, ela parou e sentou-se em um banco. Ainda triste, chorando baixinho começou a observar as crianças brincando nos balanços e no escorregador. Estas estavam fazendo grande algazarras se divertindo, também brincando de pega pega. Ali havia também alguns pais observando a faceirice dos seus filhos.
      A desafortunada mãe , contemplando aquelas lindas crianças, sentada sozinha nesse banco da praça baixou a cabeça e começou a chorar. Nesse meio tempo um velho maltrapilho com um saco nas costas pediu licença e sentou-se ao lado da inconformada mãe. O saco velho parece que estava pesado pois o mesmo tirou das costas e colocou no chão perto dos pés dele. Ela meio desconfiada olhou para aquele velho barbudo e mal arrumado e disse:
     Sinto muito meu bom homem, mas não tenho nada para lhe dar!
      A senhora tem sim! Eu quero algo que a senhora tem muito e vai dar para mim Respondeu o velho.
     Não estou te entendendo! Respondeu Maria Helena.
      A senhora poderia me dizer por que está tão triste e chorando desse jeito ? Perguntou o velho enjerido.
      Maria Helena meio sem jeito olhou para que velho e sentiu uma paz inesperada. Sentiu uma sensação de conforto, segurança e de alívio. Porém mais calma passou a contar a sua historia para esse desconhecido velho.
      Este ouviu atentamente a história dessa mãe. Ela não viu que o seu marido estava algum tempo observando-a sentada no banco da praça. Ele não se animou a ir até ela, se limitou a olhar e fazer uma pequena oração para a recuperação da sua companheira.
      Nesse meio tempo, passa uma vizinha conhecida e amiga da mãe inconformada. Esta então ao passar pela amiga cumprimenta-a.
     Bom dia Maria Helena! Tudo bem contigo? Perguntou a vizinha.
      Tudo bem! Respondeu Maria Helena ao levantar a cabeça para ver quem estava cumprimentando.
      Esta vizinha e amiga, depois de cumprimentar a Maria Helena continuou a caminhar em direção á um armazém.
     A Maria Helena não está bem da cabeça! Ela estava falando sozinha! Coitada dela! Pensou a amiga.
      Depois de cumprimentar e abanar para a sua vizinha ela continuou a falar com o bondoso velho. Este depois de ouvir toda a história dessa desafortunadaa mãe, começa a explicar o porquê de tudo isso.
     A tua filha nesse momento está muito bem! Ela está na maior felicidade junto com os Anjos! Lá não existe dor e nem tristeza! Ela está alheia as coisas negativas e desagradáveis oriundas desse mundo!
      Assim este sábio homem começou a explicação e respondendo as perguntas dessa pobre mãe.
      - Quando na hora do acidente, você olhou para a sua filha, a pequena Lúcia já tinha acabado de partir com dois anjos emissários. Essa criança ao ver os dois lindos anjos, sorriu para eles e juntos saíram voando do carro em direção ao céu. No rosto da bela menina ficou um sorriso, naquele corpo já sem serventia. Isso aconteceu alguns segundos antes do acidente. Esta criança portando não sentiu nada de dor, pois o seu espírito já estava longe do seu invólucro. O acidente e o fogo não causaram sofrimento nenhum nessa criança predestinada.
      - Mas isso não é comum acontecer. São raros os casos em que o espírito sai antes do corpo ao se confrontar com um caso mortal. Os dois Anjos saíram de mãos dadas com ela, antes de acontecer esse lamentável e fatídico acidente. Portanto ela não sofreu nada. O ciclo dela se fechou, e estava na hora de partir.
      - Quanto a maneira que ela desencarnou, devido esse acidente horrível, teve algumas causas.
      - Primeiro, foi por que você tinha que passar por essas coisas, para resgatar dívidas passadas.
      - Segundo, por causa dessa péssima estrada. Um acidente grave de proporções como esse, chamaria a atenção do governo. Este certamente haverá de tomar algumas providência. Consertando essa estrada, deverá evitar de acontecer outros acidentes. Com isso menos pessoas seriam feridas ou mortas. É o velho ditado popular "há males que vem para o bem". Continuou explicando o velho homem.
      - Quanto ao motorista do caminhão, também tinha que passar por isso. Ele está bem, se recuperou. O caminhão não era dele, mas tanto o veículo como a carga estavam no seguro e com isso os prejuízos forão ressarcidos. O dono da empresa teve apenas contra tempos, nada que pudesse ser resolvido em pouco tempo. A empresa não decaiu com isso.
     
Quanto a você mãe! Não deves mais chorar ou ficar triste por causa da perda da sua filha! Estava na hora dela partir! Você cumpriu a sua tarefa de amá-la e cuidá-la! Falou com sabedoria o velho amigo.
     Vou colocar no meu saco velho todas as tuas angústias e tristezas referente a este caso! Vou embora com essas coisas adversas tirada de você e despejar no rio, que o levará para o mar! Falou o homem amigo.
      Há! Tem outra coisa para te falar! Tu vais ter, em menos de um ano um filho e depois outros! Estes viverão muito tempo e te darão muitas felicidades! È a tua missão amá-los e cria-los e juntos serão felizes! Terminou de falar o amigo desconhecido, depois de cumprir a sua missão.
      Depois disso, o velho maltrapilho levantou-se, colocou o saco nas costas, porém agora mais pesado, deu um beijo na testa da sua ouvinte e saiu a passo. Logo em seguida o velho sumiu misteriosamente.
      Maria Helena ficou impressionado com as explicações desse velho sábio. Uma calma, uma sensação de bem estar tomou conta dela. Ela estava bem, parece que o mal estar que ela sentia foi embora. Parece que um grande peso saiu de suas costas e foi parar no saco velho que o bom homem carregava.
      Nesse momento Fernando chega perto da sua amada, beija-a no rosto e senta ao lado dela. Ele pergunta se ela está bem. Ela responde que sim. Depois da conversa que teve com o velho maltrapilho ela esta muito bem.
     Que velho meu amor? Tu estavas sentada sozinha! Não vi ninguém conversando contigo! Explica o dedicado marido.
     Mas estava sentado do meu lado um velho estranho mas muito bondoso! Tem certeza que ele não estava do meu lado conversando comigo? Pergunta assustada.
      Sim! Tenho certeza disso! Pois fiquei um tempão observando tu falar sozinha! Pelo jeito estas bem! Falou Fernando meio preocupado.
      Maria Helena conhecia bem o seu marido e ele nunca mentiu para ela. Se ele disse que ela estava sozinha, é porque realmente ele não viu ninguém sentado conversando com ela.
      Logo depois eles conversaram um pouco, levantaram do banco da praça e saíram caminhando abraçados em direção a sua casa. Ela estava radiante, diante das explicações do misterioso homem.
     Vamos para casa meu amor! Estou com muita fome! Falou a esposa abraçando fortemente o seu marido.
     Claro! Vou te preparar um bom café! Respondeu o feliz marido ao sentir-se abraçado pela recuperada esposa.
      O tempo passou depressa depois disso. Fernando ficou muito feliz com a total recuperação da sua esposa, ainda mais com a notícia da gravidez dela. Esta família feliz, estava prestes a ser aumentada por uma menina, que nasceria em breve.
      O velho emissário tinha razão. Fernando e Maria Helena tiveram mais filhos, conseguiram comprar a sua casa própria e posterior um lindo carro. A felicidade, a prosperidade e a paz passaram a fazer parte daquela linda família. Com certeza por muitos anos.



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